segunda-feira, 25 de outubro de 2010

À mesa.


Sentado à mesa. Com um copo na frente. Os braços apoiados. As pernas cruzadas, os pés nas pontas. Os olhos longe. A expressão vazia e profunda. Colhendo memórias enterradas, o homem se mexe aqui e acolá. Lá fora chove. A janela mostra o cinza dia. Os olhos se mexem, procuram algo que não está ali. Procuram algo que está longe. Tão longe, que chega não existir num espaço. O bule está evaporando a água. Mas isso não importa. Nada importa. Só a dor de lembrar importa agora. Ele respira fundo. A cabeça começa a pesar, como dói amar assim! "A vida poderia ser mais fácil...a vida poderia ser mais fácil..." é só isso que pensa. Apóia a cabeça na mão, o cotovelo na mesa de madeira. A mesa é tão velha, que está rachada. Mesa de madeira, pintada de verde gasto pelo tempo. A chuva vai caindo provocando uma serenidade sonolenta nele. Mas dormir é acessar a todas as memórias do inconsciente. Então ele prefere passar o dia, a noite ali. Apagar a luz é o tormento do dia a dia. Acender uma vela, pior ainda. Ouvir música, jamais. Ler poesia, nunca. Para quê servem os poetas?! De que adianta ler uma poesia dele, se a poesia sempre se encaixa com uma lembrança vinda direto da quarta dimensão? Os direitos autorais sempre vão para o espaço na hora da interpretação de um poema. E chove. Como é bom o som da chuva. Parece um violão dedilhado. Uma música leve, com uma melodia gaivoteante. À luz amarela, ele pensa mais e mais. Queria ser animal. Seguir somente seus instintos. Coça a barba, passa a mão em seus cabelos. Ajeita o óculos. Lembra de Carlos Drummond de Andrade.

O amor é grande e

cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e
cabe na cama e
no colchão de amar.
O amor é grande e
cabe no breve espaço de beijar.

Se apaixonar nada mais é do que se deixar levar pela maré do mar aberto. E não se importar com a infinidade do horizonte. E se desiludir do amor, é nadar no mar da solidão, com a consciência de que, se talvez achar um pedaço de terra, nada vai mudar o fato de que o oceano da solidão é infinito e sempre estará lá para te esperar e te envolver. E o oceano está tão unido com o tempo. O tempo é algo que some na descoberta da terra. Mas ele volta arrematador ao encarar o mar de novo. Você diz que não há tempo. Mas não existe tempo inexistente. Não e possível você falar que não tem tempo. Todo mundo tem tempo. Tempo a gente dá, a gente corre, a gente morde, a gente dá carinho, a gente beija, abraça, a gente esconde, a gente mostra, a gente divide. Todos temos tempo. O tempo é tão relativo quanto a vida.
Perguntas que sempre me intrigaram, desde o passado, na quarta dimensão:
Quanto tempo dura um beijo?
Quanto tempo dura uma dor?
Quanto tempo dura um doce na mesa?
Quanto tempo dura uma aula?
Quando tempo dura um amor?
Quanto tempo você precisa para se apaixonar?
Quanto tempo demora pra você chegar na casa da sua namorada?
Quanto tempo você fica com sua namorada?
Quanto tempo demora pra você terminar com sua namorada?
Quanto tempo faz que você não dá um beijo de boa noite na sua mãe?
Quanto tempo demora um punch-line?
Quanto tempo tem o tempo?!

sábado, 9 de outubro de 2010

Enquanto o seu Lobo não vem.


Vamos passear na floresta escondida, meu amor. Vamos passear na avenida. Vamos passear nas veredas do alto, meu amor. Há uma cordilheira sobre o asfalto. A estação primeira de mangueira passa em ruas largas. Passa por debaixo da Avenida Presidente Vargas. Presidente Vargas. Presidente Vargas! Presidente Vargas! Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil. Vamos passear escondidos. Vamos desfilar pela rua onde Mangueira passou. Vamos por debaixo das ruas. Debaixo das bombas, das bandeiras, debaixo das botas. Debaixo das rosas, dos jardins, debaixo da lama. Debaixo da cama. Debaixo da cama. Debaixo da cama. Debaixo da cama. Debaixo da cama. Debaixo da cama.

Debaixo da cama. O que tem debaixo da cama? Certamente seria o lugar por onde passear escondido. Meu amor? Não mais. Talvez essas palavras cantadas de Caetano façam sentido para o vadio. Mas sozinho. O convite da música serviria apenas para o vadio e ele só. E meu só. A Avenida Presidente Vargas e cheia, movimentada, cheia de guerras e disparidades. Porém, quando o vadio a encara, ela está sozinha. Encara-a de madrugada. Às três da manhã, o vadio anda pela avenida mais importante. Presidente Vargas! E o que ele encara? O nada. O infinito, porque não? O silêncio da ausência. Grita. É estridente. É tão torturante que ele, vadio bêbado que tem ares inconscientes de equilibrista, faz barulho por onde passa. Qualquer barulho físico é melhor do que o silêncio que grita e rasga e corta. Cambaleia e cai em qualquer portão. Não importa, é só um vadio. Quem se importa com um bêbado vagabundo? E ainda mais um homem de roupas tão imundas! Chapéu côco gasto pelo tempo e sapato mal engraxado. Veja, o sapato não é sujo, é mal engraxado. O vadio não gosta de que engraxem o sapato dele, não gosta de ter que ficar em uma posição superior. "Não mando engraxar meus sapatos, engraxo eu mesmo." O vadio é visto como um torto. Como um invertido. O vadio não acredita mais no afeto das mulheres. Foi então que se rendeu à simplicidade. Acredita fielmente no amor, mas não como algo tangível à ele. As esperanças ficam guardadas junto com a utopia. A felicidade, ele sempre toma uma hora aqui outro gole acolá. Sempre anda com a garrafa pequena de felicidade. Mas é para ser tomada na hora de afogar as mágoas. E é por isso que fica bêbado, vadio. Um dia vai correr atrás dos seus sonhos, vai parar de se iludir com felicidade, e vai sair correndo feito besta para tornar seus sonhos matéria visível e tocável. E as mulheres, ele ainda não conseguiu achar sentimento. Só a carne, a matéria, o interesse, a confusão. Elas dizem que gostam, mas depois tudo muda. Não há compreensão. Pobre vadio. Queria encontrar uma mulher com sentimentos, mas só achou a matéria. Queria a companhia debaixo da cama, para passear, se esconder. Queria a companhia para caminhar na Avenida Presidente Vargas. Mas a mulher que ele amou não existe mais. E depois de muitas outras, viu que o amor é um só mesmo. Ele amou a primeira. Ou foi a segunda? Ou foi a terceira? Enfim. Ele amou uma. Vieram outras, mas ele não achou sentimento. Concluiu que só houve uma mulher em sua vida. E por mais que ele ainda gostasse dela, não havia mais jeito. Porque a única mulher que ele amou, não existe mais. É viva, mas não existe mais. E a saudade aperta. E a mulher que ele amou, é aquela que ele conheceu. E ela permanece em forma de ideia, de memória. E apenas isso. Só que não dá para amar o sentimento, assim como não dá para amar a carne. Só se ama a carne e o sentimentos, juntos. Unidos por músculos, ossos, órgãos e alma. E o vadio caiu no chão. E agora seu inconsciente trabalhava por si só, deixando o vadio um pouco livre e descansado do trabalho mental. O inconsciente alimentava a mulher que ele ama. O inconsciente alimenta o vadio que é feliz sem ter que beber da felicidade.

sábado, 2 de outubro de 2010

Um táxi em Marte.

Estava com umas pessoas numa nave espacial não identificada. Destino: Marte. Chegando lá, que sol brilhante! Tão brilhante que deixava o tom das coisas até bonito. Após passar pela atmosfera, o horizonte vermelho me encantava. Estava com roupas espaciais. E de repente, um menino, do alto de um morro vermelho, me chamava. Eu me aproximava dele, lentamente. Chegando perto dele, dei minha mão e subi no morro. Vi que estava sem capacete. Perguntei "Isso aqui não é real, não é?". Como poderia respirar em Marte, cuja atmosfera é cheia de gás carbônico?! Quando olhei para terra vermelha e vi plantas. Era bonito o verde contra o vermelho. Disse que os tons das coisas eram mais bonitas, por conta do sol. Andando, respirando receioso, continuei. Minha família estava lá, junto comigo. Minha mãe, meu tio, meus avós, minha irmã. Então, entramos numa colônia de férias. Estava quente. Minha mãe me deu uma regata e pediu para que me trocasse no vestiário. Entrei, me troquei. Quando vi que estava com tatuagens. Muito bonitas. Uma mandala no meu peito direito, e uma foto de uma mulher com asas e rabo de diabo em cima de um cogumelo colorido para ser terminada em meu braço. Fiquei maravilhado, achei muito bonitas. Quando coloquei a regata, vi um relance e vi uma tatuagem nas minhas costas inteiras. Meu peito gelou por dentro. Se minha mãe visse a das minhas costas, seria uma briga certeira. Fui falar com minha mãe, de costas contra sua vista. E assim foi. Era noite, de repente e estávamos no carro. Todos perdidos, consultávamos o mapa. As luzes da cidade invadiam o carro, sem parar. E no mapa, estava escrito bem grande e em letras maiúsculas: GUARULHOS.
Depois de muito perdidos, peguei um táxi, que levou-me de volta para a colônia. A temperatura era quente, mas um quente confortável. A umidade do ar deveria estar bem alta. É difícil eu me sentir confortável, em qualquer temperatura mais quente que o normal.

domingo, 19 de setembro de 2010

Estava eu abaixo do mar.

Estava no carro. Na estrada. Por um acaso, misturado com o ócio do momento, olhei para o céu. Vi nuvens. Elas estávam estranhas. Me senti debaixo do mar, olhando para a superfície. E de repente, entrei nessa viagem. Estava em movimento, alta velocidade, com muitos metros abaixo do nível do mar. Quase prendi a respiração. No entanto, não queria desvidrar-me delas. Nuvens sedutoras e perigosas. O vento batendo forte em meu cabelo. A velocidade. O fato de que as ondas lá em cima eram brancas e com aspecto de algodão. Nada me tirava daquele transe inédito. Vá lá. O ócio me convencia a não desgrudar os olhos, tudo para não me tirar daquela sensação.Enfim. O carro já estava distante o suficiente para eu não enxergar mais aquela visão hipnotizante. Chego em casa, tudo normal. Sento e vou escrever sobre confiança. Não passou de um rascunho. E eu tenho uma apatia muito grande com rascunhos. Porque, se o texto é um rascunho, significa que eu não consegui escrevê-lo de uma vez. E se eu não consegui escrevê-lo de uma vez, significa que estava difícil para escrever. E sempre que está difícil para escrever, o texto é uma porcaria. Agora vai tudo bem. Contei das nuvens, um acontecimento. Um pequeno notável. E talvez, ao som dessas músicas-ondas que me agradam muito os ouvidos, eu consiga escrever um pouco sobre a confiança. As pessoas. É destas que precisamos e de que temos medo. Até algum dia aí, eu não sentia muito o entendimento e nem a lógica do ato de temer as pessoas. De repente, como ver ondas no céu, me veio o sentimento. Pessoas. Mesmo quem é próximo, mesmo quem tem seu sangue nas veias. Sempre há um momento em que você se vê olhando para a superfície da água. E vê que há muitos e muitos metros entre você e a atmosfera. Pode ser bonito, como eu no carro, mas muito perigoso. Porque geralmente, quando você está olhando para a distante superfície, longe como o horizonte, você está sozinho. E as pessoas que você confia estão longe, longe. Tão longe quanto a superfície. E é a solidão que faz com que você perca a confiança. E pior é quando você se vê sozinho, olhando para a superfície, logo após que alguma pessoa te afundou. E ser afundado não é algo que contribui para você acreditar nas pessoas. Mas agora deixe-me pesar para o outro lado. Como é desesperante, e quase sufocante, como a água que te separa da superfície, você querer conquistar a confiança de uma pessoa. Não é culpa dela, nem sua e nem de ninguém. Não é Maria/ Nem sua mãe/Ou as estrelas;/São os homens e as cidades infinitas. Segunda vez que cito essa música num texto meu; notável. Conquistar a confiança é complicado. É uma virtude, um privilégio. Mas eu não quero ficar pensando e nem metafisicando, que nem a peça de teatro extremamente contemporânea que vi. "Quem sou eu? O que temos diante dos olhos?!" Sinceramente? Estava quase dormindo. Minhas palavras? "Essa peça é muito 'humanas.'"Compreendo e sou completamente a favor da reflexão sobre todos os detalhes de nossa vida. Mas aquilo ali já era sacanagem. O que tirei de bom naquela peça é uma lição que eu vou resumir um pouco agora para finalizar o texto. Damos um passo e pensamos. Damos outro passo e pensamos, e olhamos para trás, olhamos para frente e pensamos. Quanto disso podemos tirar! Uma visão em quatro dimensões, com análise e fatos desenterrados. Mas também é necessário, ás vezes, dançar e cantarolar ao pé do ouvido. E disso não tirar nenhuma conclusão filosófica. Porque é possível sim, haver um ato sem uma avaliação simbólica. E mesmo que discorde, eu digo: Apenas dance, e tire disso todos os sentimentos possíveis. Não analise, sinta. Dance.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Segunda-feira sem verbos.

E intenção da escrita de hoje: sem verbos. Início da segunda feira: manhã bonita. O sol lá fora, forte e tímido; dia quente. Escola. Tudo normal, mesmas aulas, nada de novo. E no meio, uma notícia com muita felicidade em sua constância. Felicidade em meu peito. Um dia desses; pecado. Eu e você. Sol lindo e céu e nuvens e azul bebê. Tudo para nós. E uma separação contra o desejo , porém, justa para você. Sono? Então, já para a cama! Minha felicidade, a mesma. Luz. Difícil contraste nesse dia. E a prova de história. E o metrô. E o sol ainda lá, quente e o céu ainda lá azul bebê. Uma chamada aleatória. Meu caminho para lá, agora. Estação diferente. E logo meus amigos. Meus bons e velhos amigos. De repente...a noite! A luz branca no fundo do sol, e mais acima a Lua...que sorriso lindo! Alguém...meu caminho, agora o de antes, contorno da simples aleatoriedade. Meu telefone afinal de contas, para mim, para alguém. E com a graça da tecnologia, a Lua, a estrela. O sorriso da lua, Vênus bem abaixo. A menina, um sorriso? Meu coração cheio de luz com meu convite irrecusável. Sorriso interno. Meu desejo? Um beijo. Um beijo e apenas um. Uma flor equivalente à um beijo. Minha mão em seu cabelo. Cabelos ao vento. Sem um penteado e bonitos. Um sorriso. Um beijo. Sem fim! Mas...a despedida. Pecado, num dia como esse. Minha memória, solta, como uma imagem. A Lua no céu azul bebê. Cedo. Admirável Lua. Euforia pouco antes de agora. Vontade de besteira, bobagem, a vida linda. Mil, mol vezes vencedor do dia. E o convite irrecusável? Ah, sim. Este segredo para a lua. Para a menina. Sorriso? Mol vezes vencedor do dia. Um beijo? Um poeta com rima. Um menino vencedor, poeta. De um menino para poeta. Tudo isso só com um beijo. Lembrete necessário; a menina. Seu rosto, sua beleza incrível! A luz novamente! Vontade de besteira, bobagem, a vida linda. Por favor, seu convite, seu convite apenas. Agradecimentos, à Lua por favor. À menina anjo pequeno de bochechas cheias. Muito explícito? Somente dois dedinhos. E também, ao sentimento, a palavra. Às preocupações, seus devidos lugares. Fora daqui! Este espaço, meu? Pois bem, meu e meus sentimentos. Eu e minhas palavras amigas. Inimigas. Traiçoeiras. Olhos de ressaca, pois bem. Dissimuladas e ciganas. Sem elas, eu não inteiro à vida. Quem sabiamente, com teoria e lógica, com o pensamento à palavra. Oralmente e com ousadia ao pensamento para a mim, contrari edade.A dedução de que o dia de ontem para mim, às palavras? Sim, o dia de ontem, Domingo. Porém, Domingo com domingo. Domingo após domingo. E nada. E nada de palavras. Dia tão nada, que nada de palavras. Irônico? Irônico, adjetivo ao pensamento de negação à ideia de que a Lua com seu sorriso, calças e cu com a conquista referente à notícia do início do dia em contraste com o tédio do dia, com a luz infinita e forte e quente e inevitável. Irônico? Coincidência? Ora menina, ao convite irrecusável, sorriso. Um beijo sim. Uma rima. Um menino. Uma menina. Um poeta. E mais um beijo. O ônibus! Um beijo rápido. E no fim, um telefonema para a confirmação da vida.

sábado, 11 de setembro de 2010

Cultura e Civilização.

Um céu bonito. Um céu com estrelas infinitas que refletem nos olhos, atravessando o corpo com suas luzes celestes até alcançar a alma, apaziguando toda minha inquietude e pressa. A luz das estrelas me banha e me tira a consciência do tempo. Me tira tudo que poderia me deixar apressado e preocupado com o tempo. Porque o tempo não anda junto com as quietude das estrelas? Parece que ele sempre anda com o brilho de uma luz forte, do sol. O tempo corre na velocidade da luz. É noite. As luzes no céu não aparecem muito. Sabe, moro numa cidade poluída. Ela me obriga a poder ver somente as luzes dos carros, dos prédios, das propagandas. Ela me obriga a vidrar meus olhos. Mas eu sou insistente. Demora, mas eu procuro Orion até encontrá-lo. Ele também tem uma vida cheia, não pode ficar pousando o tempo todo. Olha Vênus. Esta vive para pousar. Fica sempre azuladamente brilhando. Ela e a Lua têm uma relação oscilante. Melhor definindo: elas valsam. Ora estão próximas, ora estão distantes. Uma relação de tapas e beijos. Onde, por vezes, a Lua está cheia e cheia de amores, com Vênus logo ao seu lado. E os dois namoram para todos verem. Mas, logo brigam e a Lua fica murcha (muitas vezes nova) e Vênus fica longe, embirrada. Mas isso é apenas uma visão humana. Uma visão exata certamente daria explicações de fenômenos e não haveria muito o que discutir sobre metáforas e símbolos. A vida é uma arte, não é mesmo? Mas eu me refiro à arte de criança arteira. Daquelas que dão susto, bagunçam a casa, fazem gritaria. E nós somos os pais, os adultos chatos. A vida fica correndo no quintal, feliz da vida. Cabelos ao vento, uma roda ao lado girando, controlada pela vida criança. O sol quente, escaldante. Revela-se na pele da criança. Suada, com as canelas finas à mostra, em alta velocidade. E sempre vem o adulto dizendo para parar de correr, porque senão ela se machuca. E não é que ela se machucou mesmo? Sei que se ninguém tivesse falado nada, ela ainda estaria correndo. A gente sempre coloca urucubaca na nossa vida e sempre acontece merda. Devíamos nos sujeitar mais a nossa vida. Devíamos rir da vida depois daquele escorregão. Devíamos tirar mais fotos da nossa vida correndo. Uma imagem tão bonita! Em um dia lindo, ela correndo feliz! Mas sempre estamos lá para dizer que não é certo, que é melhor ficar parado, estático, chato. A cultura e a civilização/elas que se danem/ou não/contanto que deixem meu cabelo belo/como a juba de um leão. Contanto que deixem meu cabelo como a juba de um leão, me sujeito a viver proseando por aí contando minhas histórias.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

When I'm 64.

Quando eu ficar velho quero ficar assim. Se eu tiver a sorte de ficar velho, quero ficar assim. Viver a vida como se estivesse correndo guiando uma roda ao meu lado. Com o mato alto, o sol no fundo, me olhando. O corpo suando, vivo. Cabelo ao vento, sorriso estampado, canelas finas em alta velocidade. E agora de repente, tão mais que de repente, estou numa fila do banco, indo pagar uma conta que diz respeito ao meu futuro. Ao futuro não me interessa; não tomo conta deste, somente do presente. Talvez sejam as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no meu coração. Não posso enquadradar minha cabeça. Isso não pode acontecer. Simplesmente não pode. Entupir a agenda, fazer das responsabilidades um traço adulto que me faça crer em valores quadrados. Quero sempre amadurecer, crescer, evoluir. Tenho meu sonho bem guardado na gaveta; o da evolução. Quero arcar com responsabilidades e entrar na vida adulta, mas sem me tornar um. Minha mente, espero, continua aqui. Híbrida. O poeta está dormindo, enquanto eu cheio de obrigações escrevo em meu viver. O poeta não faz nada. Só dorme, canta, dança. Escreve poesias baratas, e fica admirando as pequenas coisas da vida. Se bem que agora, não sou mais eu pessimista. Agora sou eu neutro. Eu poeta sonha, olha para o céu e vê poemas infinitos. Eu olho para o céu e sinto sono. Poeta tem vida boa. Pode tornar qualquer dia especial, simplesmente porque ele tem vontade. Pode oferecer sorvete com o tempero que todos esquecem: a liberdade. Que graça tem escolher um sorvete pensando no quanto ele vale? Muito errado envolver sorvete com dinheiro. Eu poeta é esperto. Dá pitadas de liberdade e anarquia monetária em cima do sorvete. E envolve-o com o dia especial. Eu poeta sei que não se tornará adulto. E é isso que me reconforta. Se ele sair daqui, eu estarei vendido. Tão barato que eu nem acredito. Quero ser maduro para ser colheito. Não quero ser adulto que é fruta feia e ninguém escolhe. Quero viver a vida adulta como deve-se-à viver: de um jeito não adulto. Quero ficar velho e ter o meu violão ao meu lado sempre. Sentar na frente de casa, e gritar alguns versos que não valem uma rima miserável. Tocar violão e só. Gritar os versos e só. Gritar minhas histórias. O carinho pelas minhas histórias não poderia ser maior. Agora eu me vou. Dê boa noite ao Eu Poeta. Ele às vezes não ouve, mas não leve a mal.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Poemas velhos que achei na gaveta - Parte V

O menino anda
pelo mundo
que se limita
ao seu quintal.

Nos jardins
grandes guerras
e no céu
o espaço sideral.

Poemas velhos que achei na gaveta - Parte IV

Para Manuel Bandeira

Teu pedaço que me vinha
de mão de de amor,
de repente não mais vinha,
me causando muita dor.

Teu olhar que me sorria
nunca mais brilhoum
teu carinho que fazia
era bom e se cessou.

A palavra que convinha
vinha a mente viajar
aquela minha menininha
cresceu e longe foi cantar.

Um lápis de madeira
foi o que me sobrou
pra fazer a brincadeira
da ciranda que acabou.

Poemas velhos que achei na gaveta - Parte III

Estava procurando algum dinheiro.
Quando achei um poema na gaveta.

De certo mudei 14 palavras
erradas, sem razão ou métrica.

Poema velho, poema de criança.
Como se pode permitir tal asneira?

Criança não pode brincar com palavra.
Não sabe de nada, não pode escrever.

Alguém tão jovem que não conhece niilismo...
tem com absoluta certeza minha completa admiração.

Somente queria eu poder escrever novamente
outro poema como este velho de criança.

Queria eu poder simplesmente
uma infância sem gavetas e pensar consciente

Poemas velhos que achei na gaveta - Parte II

O vento continua a andar
pela grama entre os insetos.
Notícias para soprar.
Para os que ouvem, para os cegos.

O vento continua sempre a soprar.
Escondendo-se à sombra de uma árvore
onde dorme, no silêncio se acalmar.
Melhor assim, longe do luxo de mármore.

O vento continua a cantar.
Encantando as moças à janela.
Dando poesia aos homens do mar
descobrindo o mundo em sua caravela.

O vento continua a vir do horizonte.
Da linha que separa o grande mar do céu.
Que ao olhá-la não sabe o quando e o onde.
Até a noite varrer o firmamento com seu negro véu.

Poemas velhos que achei na gaveta - Parte I

Não interprete mal
como tristeza ou peso
só quero retratar
o impacto e reviravolta.

Estava o meu amor no meio do caminho
e no caminho sucessor estava a felicidade.
Que infla o peito e me dá saudade.
Que paradoxo esse cruzamento!

Com meu amor no caminho
veio a saudade, a dor da paixão.
A nostalgia que não pode ser alcançada.
A nostalgia do agora.

O sofrimento de perceber
que o momento atemporal
e único, e forte, e fundo
e então, e incompleto, e ofegante
e sensível, que incomoda, não para de incomodar.

Mas não se esqueça que é o incômodo do bom.
Aquele incômodo gostoso, que suaviza.
É a dificuldade que impulsiona.

Tá Horrível.


Não se sabe o que acontece.
A menina triste não sorri.
Ergue os lábios como quem parece
gostar muito de estar ali.

Mas, ao outro o disfarce não vence.
Dói nele achar que ela não ri.
Deseja que ela soubesse
como é bom à toa sorrir.

No alto da colina, o riso alvorece.
Sem graça, achando a maior graça para rir.
Se a boca inteira o riso invadisse
não mais seria a menina assim.

Sabe-se que logo o sorriso aparece.
Basta uma graça ou um poema em nanquim.
E então nada a menina apetece
para sorrir, viver e ser feliz.

Soneto do Louco.


Otorrinolaringologista
Paralelepípedo estranho
Não quero ir ao dentista.
E nem falar como um fanho.

Com o meu problema, só especialista.
Para disgnosticar-me enfadonho.
Fui parar até em capa de revista.
Vou esconder-me longe na montanha.

Vestir um chapéu estranho na cabeça,
assumir de vez minha loucura.
Não me deixe ir antes que me esqueça

Desta cidade horrível e escura.
Com essa gente normal e espessa
que não é feliz para ser pura.

Para ser distribuído na rua ou dado para quem gostou mesmo.


Vim trazer-te esta flor.
Que eu nem roubei, nem comprei;
A fiz com minhas pobres palavras
que não valem nem uma rima.

Por isso é flor singela.
Mas, se aceitas meu presente,
talvez vejas beleza nela.
Não por serem muitas flores.

Nem por serem apaixonadas.
Mas por ser uma flor única,
simples e que talvez consiga
valer um beijo em teu rosto.

Então recebe-a tal como ela é.
Recebe-a como um beijo.
Seguido de algum carinho.
E por fim um sorriso.

Falta ferro ao ferreiro.

Sou um poeta analfabeto,
otorrinolaringologista.
Faço poemas sem afeto
sem amor, sem ser analista.

Não quero ser cronista,
Escrever em prosa? Não me apego.
Não danço; não é meu lar a pista.
E adentrar o mundo das palavras, não me atrevo.

Mal decorei o alfabeto,
quanto mais as palavras à prima vista.
Não sei ler nem Monteiro Lobeto
Que escrevia para criança noviça.

Quando eu aprender a ser poetista,
de certo abandonarei meu emprego;
otorrinolaringologista
e escreverei para parnasianos e leigos.

domingo, 5 de setembro de 2010

Não sei.

Este post não é para ninguém entender. Não é para fazer sentido. Não é para eu expressar nenhum sentimento. Não é para contar uma história. Não sei. Meus dedos tomarão conta das teclas e é isso.
Sabe? Quando seu peito enche? E aquele medo gigantesco de dizer alguma coisa muito séria, que pode deixar quem ouve com medo? Vivemos em tempos perigosos. Onde dizer a palavra "amor" pode assustar muito. Por ser banalizada, essa declaração tornou-se algo raro e delicado. Concordo. Não estou amando, mas a banalização da felicidade as vezes me tenta a usá-la. Mas não é a palvra certa. Não quero usá-la. Quero viver o agora. Carpem diem et locus amuenos. É isso. No escuro, uma música esquecida, é escutada mas não ouvida. Enquanto dois corpos se orbitam. E ondulam em seu ondular, numa frequência tranquila, ao som de algum som branco. E é isso. E do nada, a luz acende, fica doido para sair dizendo besteira. Vontade de abraçar o mundo. Vontade de sair por aí e dizer que a vida é linda e bela. Mas na verdade ela não é. Porque não há nada mais abominável nessa vida do que as pessoas. E não há nada mais necessário nessa vida do que as pessoas. O homem não é uma ilha. Olhar as estrelas nada mais é do que olhar para o espelho admirável e tranquilo que você gostaria de morar. Tranquilidade é o que queremos. Só que sempre há o tempo, que corre e corre. E se ele correr demais, não passará mais ônibus. Se enrolar quente com um corpo celeste azul e bonito. E passar a mão nos cabelos. E beijar o rosto. E com as pupilas dilatadas, captar um resquício de olhos escuros te encarando. E se sentir vergonha, não se assuste, não se acanhe. Está escuro, ninguém verá que você está vermelho de vergonha. Pegue o violão. Para essas ocasiões, é preciso um violão. Toque aquela, do Vinicius. Isso, Chico. Tá, chega. Estamos todos cheios de comida, vamos nos deitar e olhar para o teto. Olhe a estrela cadente. Faça um desejo. Não pode contar o desejo, senão ele não se concretiza. Não, não pode falar. E se eu pedir para que esse momento nunca acabe? Se eu contar, ele acaba? Olha aí, 11 horas. Vai, levanta, com mais alguma delonga, o ônibus não passa mais. Sua casa é longe. Longe não existe. Existe a preguiça. Existe a disposição. Existe a vontade. Existe o cartão com créditos para pagar o ônibus. Longe é um conceito relativo. Digo longe falando como um cara normal. Tá bem, é longe. Mas conversando atentamente, longe é relativo. Para de falar besteira, homem. Tudo o que falas é besteira. Agora, trata de tirar esse fedor de clorofila de teu texto. Mas a planta é tão essencial para minha alimentação! Come carne, homem de Deus! Para disso de ser um bicho! Isso é coisa de saudoso dessa geração feita de massinha de modelar. Essa geração, já dizia um amigo meu, tá toda fodida. Esperança é para os tolos. Ouve teu Jimi Hendrix em paz na tua casa, mas não espera outro. Prego a não-revolução, a evolução. Tenho um sonho bem característico de um filho da geração saudosa feita de massinha de modelar. O sonho Hippirata. Mas deixo esse sonho dentro da gaveta, para olhar ora aqui, ora acolá para ninar um pouco e achar bonito. Quero a evolução, pacífica, serena. Acordem, filhos da terra! Tomem uma atitude, desliguem a televisão, vão formar alguma opinião sobre algo. Não concordem comigo! Discordem, discutam, argumentem! Cala-te, revolucionário. Não sou revolucionário, sou evolucionário! Mas essa palavra nem tem no dicionário! Não me importa. Tenho vergonha por ser quem sou hoje. Esse não-careta, que se mostra do jeito que é, do jeito que faz, o que faz. Eu não era assim, cara pálida. Acredita em mim. Hoje senti vergonha desse meu jeito agitado, com vontade de quebrar guitarras, fazer som barulhento e com ritmo marcado. De me expressar e me identificar muito com o Sr. Michael Balzary. Dizem que ele é louco. Mas eu acho tão bonito o jeito espontâneo e aleatório. Eu sou assim. E hoje eu me importei de parecer louco. Mas eu acho bonito e continuarei. Resistirei à tentação quadrada. Sairei pelado, conversando com as estrelas. Sairei e deitarei na calçada e rirei das pessoas andando de ponta cabeça, fazendo as pessoas acharem que sou o maior drogado do mundo. Mas eu tenho orgulho de dizer que a minha droga é o aleatório. É o espontâneo, o bonito. O meu bonito que é estranho aos olhos alheios. É sentar no balcão e conversar sobre qualquer coisa. Contar minhas histórias. Gosto de minhas histórias. Guardo-as junto do sonho Hippirata, na gaveta. Nino-as também, e acho bonitas. Passou a vergonha. Gosto do meu jeito de ser. E agora eu vou, por mais que queira escrever aqui durante a noite toda. O sono, a cama, o tempo me chamam. Boa noite, dorme com os anjos. Dar um beijo de boa noite na sua mãe. Verso bonito. Clorofila? Onde está meu amigo Orion?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Carinho.

Hoje eu comi um pedaço de carinho. Ele veio em forma de chocolate, com pedaços sólidos de açúcar entre ele. E o ingrediente principal foi a surpresa. Não digo que foi "o melhor chocolate do mundo" porque não quero apresentar aqui ares de romântico, exagerado. Quero ser muito bem medido. E muito bem sincero. Estava atordoado. Minha cabeça não doía, mas agia como tal. Ela pesava. Não fosse minha força de vontade e meu pescoço paciente, ela teria cambaleado para baixo e talvez nem voltasse ao mundo. Meu estômago, não vazio, mas implorando para que o estado de quase vácuo mudasse. De repente meus olhos, humildes janelas de meu ser, puderam ver uma luz tão graciosa que apagou quase que completamente o fato de que o dia estava uma grande merda.
Antes que eu comece a falar dessa visão que me salvara o dia, vamos ao dia. Comecei antes do sol. E sou grato, porque logo ao sair de casa, vejo Orion. E me dei conta de que não via Orion fazia muito tempo. Cumprimentei-o saudosamente, conversamos por instantes e então tive que voltar à realidade; esta me chamava. Afastando-me de Orion, continuei a observá-lo. Seu cinturão, sua pose de guerreiro. Muito lindo. Era um agradável que estava longe do meu dia. Chegando aonde tinha de chegar, vi que cheguei muito cedo. Ótimo, poderia ter conversado mais tempo com Orion. Mas então, o dia foi passando e o sol foi tomando conta e torturando quem é obrigado a prestar atenção em assuntos no mínimo indesejáveis. O calor e a fome foram tomando conta de mim. E o desânimo. E o homem entra e começa a falar sobre ecologia. E minha consciência começa a viajar para a dimensão de Orion. Longe da tortura do sol, longe da ecologia. Meu corpo estava implorando. Todos os membros pesavam. Falar era tão trabalhoso que o silêncio foi sagrado. A tortura do saber acabou. Saio da sala e vou buscar alimento para salvar a vida de meu corpo. Chego perto mas não me aproximo. Multidão. O barulho excessivo, pessoas, filas, aglomeração. Apoiar-me numa grade foi sagrado.
Agora chego aonde queria chegar. O mundo exterior estava incomodando-me ao máximo. Quando recebo carinho em forma de chocolate. Não sei se foi com intenção carinhosa. Mas na minha situação, quase que morrendo, aquele chocolate foi a demonstração de carinho que me fez continuar o dia. E não bastasse o carinho que recebi, pude enxergar dois olhos que me agradam. Pronto. Nada está perdido, então. Tudo bem, continuarei de pé. Irei me alimentar, cumprir minhas obrigações, voltarei para casa. Chega de exagero. Você não está morrendo. Para disso. Juntei forças para agradecer. E tentei demonstrar algum carinho em retorno. Obrigado, salvaste meu dia.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Pena que não sou de lá.


Sou paulistano.
Moro na terra da garoa, terra pagã.
Aqui encontran-se rodas de samba.
Mas as rodas de samba daqui não rebolam como as de lá.
Aqui não se tem medo de Deus, nem para roubar.
Aqui não tem praia, não tem nenhum redentor.
Não tem Cartola, Seu Jorge ou Jorge Ben Jor.
Cá pra cá aqui na minha terra, tudo corre, tudo berra.
Lá na terra rio do mês primo,
Nada encrenca, sem pressão, não tem grilo.
É lá onde nasce malandro, violeiro e enrolador.
É lá onde a mulata desce o quadril enlouquecedor.
Terra do sol matador na cabeça,
da água de côco, e da areia espessa.
Terra de Cazuza, com suas visões do Arpoador,
Onde o lobo grande grita com sua voz rouca no Circo Voador.
Onde houve um Chico que disse que o homem amara sua mulher como se lhe fosse a última.
E completou dizendo que amara seu filho como se fosse o último, o pródigo, o único.
É por lá que passam para ir de Sampa a Salvador.
Por acaso uma terra onde já imperaram,
onde já dançaram e cantaram
a música negra
a música misturada
dança negra
dança misturada.
Terra que faz questão de ser uma cidade
onde soltam fogos para todos de todas as idades
verem que nada é díficil no Rio de Janeiro
lá é tudo lindo, tudo gostoso e perfeito.
Terra com defeitos de todos os efeitos e sabores,
Terra com estátua de Drummond e canções de amores.
E eu aqui, nesse metrô, nesse ar sem praia, sem por onde escapar;
só lamento muito por não poder degustar. Pena que não sou de lá.

domingo, 22 de agosto de 2010

Domingo sobre o sábado.

Quanto vale um sorvete?
Menos do que uma água de côco abandonada
sem concorrência.
Menos do que poder achar uma forma de se provar o amor.
Menos do que poder experimentar simples coisas pela primeira vez.
Menos do que olhar luzes no infinito.

Qual o gosto do sorvete?
Melhor é o gosto de sentar num ônibus sem ter que sair dele tão cedo.
Muito melhor é saber o que deve ser feito e esperar por não ter coragem.
É ficar olhando sem graça, deixando tudo sem graça.
Mas rindo por ter a maior graça do mundo.

sábado, 21 de agosto de 2010

21 de Agosto de 2010.

Dia so called "estranho". Só espero que o dia da pessoinha que diz que tudo na vida dá errado tenha sido bom...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Texto para mim e meu fiel blog.


Desculpa aos dois ou três leitores assíduos que esta página tem. Mesmo. Mas hoje eu vou bater um lero com o meu fiel blog. Talvez eu esteja direcionando esse texto justamente porque eu tenha um pouco de vergonha com o que as pessoas possam achar de mim. Então, como eu não ligo muito pra isso, porém, tenho uma certa timidez, aqui vai. Hoje foi um dia cheio e tal. Cheguei tarde em casa por preguiça de fazer a viagem de cada dia. Muito frio mesmo de manhã. Depois foi esquentando. De vez em quando eu ainda lembro daquele cachorro de ontem. Aquele que eu vi na estação do metrô, deitado como uma esfinge e de patas cruzadas, observando o movimento. Estranho, mas aquela imagem ficou na minha cabeça! Acho que porque eu achei engraçado e talvez tenha tido uma pontadinha de desejo de ter uma vida como a dele. Mas acho que não teria tanta graça. Mas pera! Eu só digo isso porque eu tenho consciência das coisas. Aquele cachorro preguiçoso não tem consciência de nada! Qual é! Se nós, humanos, não tivéssemos consciência, talvez ficássemos à procura de comida, e reprodução. Então, eu acabo por concluir que eu gosto muito de ser um humano ocupado. Mas nossa, aquela cena do cachorro. Genial. Dia frio, céu azul bebê, sol no céu. Nuvens branquinhas. Acho que a imagem ficou na minha cabeça pelo fato do clima ser completamente contraditório. Eu gostei muito disso também. Não é algo que eu possa guardar numa palavra, ou imagem. Foi o conjunto. Dia aberto, céu azul, sol, e todos andando com frio, tentando esquentar suas mãos. Genial. A natureza é genial. Por promover dias assim, para poucos repararem e por dar a consciência aos humanos. Um dia desses eu ouvi meu pai, dizendo que o homem criou a cultura, os símbolos, a religião no momento em que ele tomou consciência da morte. Me faz lembrar a cena dos peixes do Monty Python. Acho que aquela cena eu pretendo imitar para todos que eu puder na minha vida.
Sabe o que veio na minha mente hoje? Uma imagem. Uma cena, um momento, seilá. Sabe? Quando um cara está com sua menina. Ele como uma raíz, susttenta ela. Eles estão, por falta de um meio termo melhor, namorando. Ela se levanta. Cruza os braços. Leva as mãos para perto da região dos rins. Pega a ponta da blusa. Começa a levantar as mãos segurando. A blusa vai ficando do avesso. O cara fica observando. Sem pressa. A blusa chega na cabeça. Ela tira totalmente, inclinando a cabeça um pouco para o lado. Tirando a blusa, ela mexe um pouco no cabelo. Fura ele com as mãos, levando para trás. A inclinada de novo. As mãos dela descem nele. Ela vai se inclinando para frente. Voltam ao beijo.
Fiquei com isso na cabeça também. Tá, agora podem me chamar de safado, seilá. Mas eu acho isso bonito. Acho sexo muito bonito. O amor é bonito. Eu acho o sexo a coisa mais humana. Assim como o amor. Sexo com amor é genial. É bonito de participar. É transcedental.
Sabe? Os dois abraçados, sentindo o corpo um do outro, sem roupas. Eu me lembro quando senti isso pela primeira vez. Foi...apaixonado. Por falta de uma palavra melhor de novo. Mas nossa, foi incrível. Seio contra seio. Barrigas tímidas encostadas. Braços se envolvendo, olhos nos olhos. Um menino descobrindo um par de peitos femininos. Não tocando, e nem nada. Só por saber que eles estão perto. Um menino descobrindo uma barriga feminina. Um pescoço feminino. O que é o corpo de uma mulher senão um grande abrigo para o homem? Um corpo. E um corpo apenas. A boca, onde se descobrem beijos infinitos. E depois o pescoço, onde se faz carinho. Existe pele mais perfeita do que de mulher? Pescoço sedoso. E o peito antes do peito. E logo, o coração. Palpitando de emoção de exitação. Pernas enroladas uma na outra. Pés fazendo carinho um no outro.
Enfim, eu não estou saudoso de uma pessoa em questão. Mas estou saudoso disso. Eu sei que eu posso viver isso tudo de novo. E eu vou.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Enfim. Dois.

Estávam os dois. Enfim sós. Enfim os dois. Em um lugar tão escondido e tão aberto. Tão bonito. Fora o dia em que ele dissera a ela que ele gostava do jeito que ela sorria, que ela era recatada, que ela ria. Dissera coisas que ela gostara de ouvir. E ela ficava mais e mais sem graça. Conversando à toa, sem o tempo ou o espaço ou ninguém para impedir. It was timeless. E entre a conversa, a menina dissera que era cética. O rapaz não podia deixar aquilo acontecer. Uma menina tão diferente que não acreditava? "Você tem que acreditar!", dizia ele. E ela talvez num charme misterioso ou simplesmente sendo honesta dizia não entender. Depois de muito tentar convencer, o rapaz não a venceu. Desapontado, ele se conformou e continuaram a conversar. Conversaram sobre as coisas. Tentaram fiamente descobrir o sentido da vida. Acabaram por concluir que de nada tem a vida. Discutiram sobre quando vão dormir e como tudo, aparentemente tudo vem à mente. Tentaram descobrir como é que fazia para chegar na terra-que-chega-sem-querer. Cantarolaram letras impactantes dos Beatles. Pararam no tempo, olharam para o mundo e perceberam que este girava. Fizeram cócegas um no outro, numa incessante guerra, até pararem no chão, um do lado do outro. Rindo como nunca. Depois de dançarem valsa ao som das árvores ao redor, eles se sentaram novamente e começaram a ouvir o mundo. O silêncio entre os dois dizia tudo. Então, como se algo premeditado tivesse em mente, os dois começaram a se olhar. Imediatamente o pobre coração do rapaz começou a querer pular do peito. Boca seca, pernas tremendo. A menina mostrava um sorriso quase nulo, no canto da boca. O rapaz começou a se aproximar. Ela transformou sua expressão. Estava séria. O garoto parou. "Sabe que eu não acredito no amor." "Bom, então eu tenho uma proposta", disse o rapaz numa ideia repentina. "Qual?" "Deixe-me te provar que o amor existe." "Como? Com um beijo apaixonado, eu suponho", disse a menina com ironia. "Não, uma prova mais concreta.", contrapôs o rapaz. "Deixe-me pegar um pedaço pequenino de amor, e aí eu volto para te mostrar. E aí, você vai ver diante de seus olhos. E também verá que o pedaço que eu conseguir pegar não será nada comparado ao amor, amor mesmo."

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Terra-onde-se-chega-sem-querer.


Numa terra distante e diferente, havia uma menina saltitante brincando e cantando baixinho. Não se sabe de onde ela veio, e nem o propósito dela. Não se sabia também nem onde e nem quando estava situada aquela terra diferente. A menina tinha olhos azuis, bem azuis, cabelos castanhos ondulados, seus dentes da frente eram levemente avantajados. Sua pele era morena, não tão morena e não tão branca. Um meio termo. Ela brincava feliz, e mesmo tendo consciência da falta de informações e conhecimento sobre tudo ao seu redor e tudo sobre sua história, ela não ficava aflita e nem assustada.
Estava ela brincando, quando se aproxima um homem velho, aparentemente muito cansado. A menina para de brincar e olha para o velho.
-O que acontece com o senhor?- perguntou a menina.
-Eu acabo de chegar da terra dos homens.- Diz num suspiro cansado. O homem conseguira escapar de uma batalha violenta, que fazia parte de uma grande guerra, que envolvia o planeta inteiro.
-Terra dos homens? Já ouvi falar muito dessa terra...como o senhor conseguiu chegar aqui?-indagou a menina.
-Cheguei aqui por acidente...acho que é aqui a terra onde se chega sem querer, não é?-disse o velho, - Como é a senhorita chegou aqui?-
-Eu não sei...mas acho que faz sentido isso o que o senhor falou...todos que já passaram por aqui chegaram de surpresa, sem querer...-Pensou alto a menina.
-Todos chegam e todos conseguem ir embora?- Pergunta o velho.
-Sim, acho que para ir embora tem que ser sem querer também...- Respondeu a menina.
-Há quanto tempo está aqui?- Perguntou o velho já começando a ficar assustado.
-Eu não sei nada sobre mim, sobre essa terra, sobre nada...eu só...brinco...-Disse a menina num tom melancólico.
-Não achas que um dia poderia ir embora daqui? Não há muito o que fazer por aqui, não é mesmo?-
-Eu tenho tudo o que uma menina precisa.- Disse a menina num tom pomposo.
-Está bem, não quis ofendê-la...é que, de onde eu venho, há muitas coisas para se fazer, se aprender, se viver!- Exclamou o velho.
-E muitas guerras para se fugir...-
O velho ficou sem resposta.
-Acho que o senhor não é uma boa pessoa.-Esclareceu a menina
-Porque acha?-
-Se o senhor veio parar aqui, e estava no meio da guerra, quer dizer que o senhor não queria sair da guerra, e veio parar aqui sem querer.-Ponderou a menina.
-Oh não! Não ache isso, por favor! Eu estava tentando salvar um amigo meu, por isso não queria sair de lá, ele estava morrendo...e aliás, com esse tempo que já passou...-O velho não terminou a frase pois estava tentando esconder lágrimas.
-Não acredito no senhor.- Insistiu a menina.- O senhor é um homem. Aprendi com todos esses anos que não se deve acreditar nos homens.- Completou.
-Todos esses anos?- Estranhou o velho.- É uma menina!-
-Sei que sou, mas pensa que o tempo passa por aqui?-Disse a menina com um ar de riso;- O tempo tem muita intenção de aparecer por aqui, mas é justamente esse o segredo de não chegar aqui...por isso não conseguem me encontrar eu acho...-
-Não há muito o que fazer nessa terra traiçoeira, não é?- Concluiu o velho.
-Não mesmo.- Concordou a menina.
-Então deixe-me brincar com você, e quando esquecer da vida, voltarei para minha terra.-Disse o velho se achando genial por isso.
-Você é quem sabe.- Concordou a menina indiferente.
E assim os dois ficaram brincando, por muitos e muitos anos. O tempo não conseguiu até hoje chegar nessa terra, e o velho, por ter escondido fortemente dentro de seu peito a vontade de voltar para a sua terra, não conseguiu voltar nunca mais. O tempo continuou parado. Se ele voltasse, iria chegar no exato instante que que desapareceu. Até que o tempo desistiu de esperar, e continuou. Seria até perigoso para o velho voltar. Então ele continuou com a menina, ora ou outra aparecendo um viajante surpreso e depois voltando. A menina não entendia como é que o velho não voltava. Mas ela também não entendia porque ela não voltava, então...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Faz-tempo-que-eu-não-posto-poema


Sinto falta de um sopro
de um sussurro, um assobiado
apaixonado, serenamente sorridente.

Sinto falta de um sorriso serelepe
de quem fez algo sem querer, sempre
pensando em se safar para a próxima sacanagem.

Sinto sutilmente que sua pessoa
não está assim tão secreta, sem se pronunciar.
Sei que segredos não podem se esconder assim: para sempre.

Saia da toca, sem vergonha!
Mas cuidado com sua saia, que pode ser traiçoeira.
Sem essa de ser e aparecer bonita, simplesmente saia!

Seria uma honra apreciar seu sorriso
sem medo de enxergar e sentir a radiosidade
de um sorriso atômico que em mim explodiria tão sorrateiramente.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Tudo foi contra o status quo.

Leve desespero. Não consigo respirar. Meus pulmões estão tendo um ataque. Peço em silencio para que me levem ao hospital. No carro, a minha respiração difícil e zumbida tomava conta do ar. Chegando lá, a burocracia brasileira explícita. Números, documentos, endereço, mostarda preferida, nome do papagaio do bisavô, tamanho do dedinho do pé esquerdo. Eu poderia estar com o meu cérebro para fora, mas nada poderia me colocar numa sala de emergência sem eu dizer nada sobre minha mostarda favorita. "OK! É HEINZ!" Tudo certo, coloque-no na maca. Depois de medirem minha pressão, taxa de oxigênio no sangue, batimentos cardíacos, fiquei em outra sala de espera. Era a sala de espera intermediária. Se você estava ali, significa que você passou pela burocracia brasileira, ganhou uma pulseirinha com algumas informações suas, já mediram sua pressão, taxa de oxigênio e batimentos por minuto. Eu passei por essa examinação superficial respirando com dificuldade. Então a mulher simplesmente fazia o que tinha que fazer, e eu continuava a respirar com dificuldade. Talvez essa frase não tenha feito muito sentido, mas, tente imaginar uma enfermeira medindo sua pressão e observando uma tela e anotando enquanto você respira com bastante dificuldade. Ah, agora sim pareceu estranho, né? Enfim. Voltemos à sala intermediária de espera. Você está lá, entre a etapa de ser examinado e ser atendido. Tinham poucas pessoas. Um homem dormindo com um jornal recostado sobre ele, duas mulheres com os olhos esbugalhados que tinham a expressão de quem não dormiam fazia anos, e eu. Todos, repito, TODOS os cômodos do hospital tinham uma televisão, onde passava um filme trash de ação. Fiquei surpreso quando fui atendido e não havia a bendita da televisão. O médico anotava e me perguntava coisas, rápido, sem olhar para mim. Pegou seu instrumento mais emblemático, ouviu meus pulmões pedindo por um sopro de vida e voltou à mesa, e fez mais anotações. Mandou eu fazer inalação e tomar uma injeção. "Injeção pra quê?!", foi a minha reação. Mas, me senti o drogado mais drogado do mundo. A infermeria chegou, prendeu a borracha no meu braço, e começou a examinar o meio do meu braço enquanto eu abria e fechava a mão. Achou. A veia saltava timidamente. Ela passou alcool, cuidadosamente, e colocou uma agulha-tubo presa com fitas adesivas. Pegou as duas seringas contendo as drogas. Eram líquidos incolores. Eram seringas grossas, com quantidades julgadas por mim, grandes. A enfermeira ficou preocupada, porque não tinha certeza se a veia repulsava o sangue. E eu olhava o meu braço com um canal direto para a veia, esperando o líquido. Depois de uns últimos acertos, veio a seringa. E meus olhos olhavam para aquilo com o maior susto possível. Ela estava colocando a droga dentro de mim. E eu comecei a sentir o líquido no meu braço. Eu estava cansado, porque todos os músculos do meu corpo estávam contraídos. Bizarro. Fui injetado. Horas depois, após inalações e um filme brega sobre uma transexual que não tinha coragem de assumir-se para o filho, voltei para casa. Relembrando os momentos bizarros em que a enfermeira me dera um pico. Chegando em casa, engoli uma massa italiana cilíndrica cujo interior consistia de presunto e queijo, cujo nome eu não sei escrever.

sábado, 7 de agosto de 2010

Enfim.

Os acordes começam, e suas disposições fazem do tom, menor. Então, como quem não quer nada, surgem as notas, soltas, ao contrário. Ecoadas, indo de um canto ao outro do cérebro. E essa melodia segue num fluxo contínuo e que parece não ter fim. Respiro com dificuldade. Fecho e abro os olhos e vejo que tudo está no mesmo lugar. Mas será? O que acontece no quase desprezível segundo que eu fecho os olhos? A todo instante isso acontece, para todos. O que dá para acontecer nesse instante? Dá pra se apaixonar? Dá pra ter uma grande epifania? Dá pra sentir uma dor? A agulha vai riscando...e as notas, com algumas leis, vão fazendo seu caminho...até o meu cérebro, este que carrega tantas dúvidas, desejos, preocupações e suplica por certeza. E agora, desabafando com meu fiel blog...meu caro, sinto que há uma semente entusiasmada querendo nascer. Não sei o que faço. Sei que vou continuar continuando o que deve ser continuado. Preciso estudar amanhã. Infelizmente eu vou ter que dar uma rebolada grande na vida, porque INFELIZMENTE, é dia dos pais. E isso significa compromisso com os familiares. Eu amo meu pai, amo o pai do meu pai, o pai da minha mãe. Mas isso não significa que o dia que determinaram ser "deles" eu tenho que ser submisso e (se eu não for às comemorações de família, sou) julgado como membro da família inconsequente que não liga pra ninguém. Odeio isso. Enfim, acho que seria uma boa eu dormir, pensar na minha singela semente. Tentar esquecer as cinzas. Renascer. Ligar-me a minha cabeça. Esse post não está bom, ele tem tom confessionário. Bom, eu sou de carne e osso, não posso ser artista o tempo todo. O artista já foi dormir, ele está deitado com as boas lembranças, chorando porque hoje são cinzas. Ele está feliz porque há uma semente muito bonitinha e pequenina querendo nascer. Agora eu pergunto a esse andarilho de memórias: "Mas antes de ficar todo contente, será que essa semente é recíproca?" ele me diz "As mulheres são confusas". Sabe, apesar de eu ter um ar cético para o meu eu artista preguiçoso e cigarrento, eu admiro muito a conclusão de que ele teve agora. As mulheres são confusas. São como cebolas infinitas. Camadas e mais camadas. Sem fim. A vantagem sobre o homem? Bom, ela se machuca superficialmente, não é? Agora, eu que tenho uma camada, que me exponho e me dou completamente, saio arrasado, com as minhas memórias chorosas...e a esperança. Mas eu tenho o meu eu cético, ranzinza, rabugento, que lhes escreve agora. Estou com sono e vou dormir. Se bem me conheço não vou sonhar hoje à noite. Resmungo algo contra o meu eu artista, mágico que bem provavelmente, não irá dormir, cantando para as estrelas, relembrando as cinzas e a semente. Que o passado que te carregue então! Boa noite.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Extensões aleatórias e atemporais de minha mente humana.

Voltando para casa. A avenida está escura, e está tudo vazio. Ouço somente meus passos. De repente, ouço um caminhão se aproximando. Os lixeiros descem dele, pegam uma quantidade de lixo desumana (porém completamente humana, pois nada somos do que grandes produtores constantes de lixo) em pouquíssimo tempo. A parada acontece no próximo poste. E assim vão andando na avenida, eu, e o caminhão de lixo. A cada dez metros acontece uma parada do caminhão. Os lixeiros descem, pegam sacos e mais sacos, pesadíssimos. O caminhão vai andando lentamente. E eu acompanhando-o. A cada poste, uma quantidade grandiosa a ser colocada no caminhão. Em uma parada, um grande saco rasgou, esparramando lixo na rua. Não havia tempo de parar para catar o lixo na rua. Deixaram assim e foram-se embora. Continuei no meu passo intrigado pela diferença imposta pelos homens. O que me diferencia do lixeiro? Do mendigo? Do homem rico em seu carro com motorista? Do próprio motorista?

Chego em casa, silêncio. Ponho lentamente minhas coisas na mesa. Sento em minha mesa. Penso. E de novo a sensação de melancolia que ficar em minha casa causa, ataca novamente. O azul do momento vai se derramando pelo ar, nas paredes. Vai derramando como sangue. Como um líquido denso. Tento me distrair, com música. Coloco algumas guitarras estrindentes para ocupar meus ouvidos. Assim não ouço a voz das lembranças. Ocupo meus olhos com imagens qualquer, assim eles não enxergam os lugares e suas respectivas memórias. Meu nariz irritante é entupido, então não faz diferença tentar ocupá-lo com qualquer coisa. Minhas mãos ficam onde estão. Entorpecido, mergulho no saudosismo.


Relembro da saudade que sinto de olhar para olhos, com ares de apaixonado. Timeless. Definindo a vida como uma onda. O pico alto dela, é quando você acha que está amando. O pico baixo é quado você não crê no amor. Mas nenhuma certeza é sabida. Tudo o que se vê é a chuva. Mas o primeiro passo é completamente cego. Versos me vêm a cabeça, chegam no papel, mas de lá nada sai.


Pele suave

da flor da idade

que saudade...


Abuso da palavra que só minha língua mãe mestiça pode falar. Saudade. Sinto saudade porque sem a minha vontade, caí do pico que crê no amor. E ainda estou caindo, mas mesmo assim, sei que devo continuar no meu passo errante com a chuva impedindo minha visão.


Será Freud batendo a porta? Será a morte? Ou será só as imagens bonitas se opondo à uma visão freudiana das coisas, de tudo? Ou será a visão Freudiana uma visão do pico descrente do amor?


Saudade, saudade

de sentir um corpo por perto

com intimidade...

Saudade de ver um sorriso feminino;simples


...me dizendo tudo ao contrário de Freud. Saudade de observar olhos sorridentes e enxergar uma alma serena. E a saudade só existe porque estou caindo. Cheguei já no pico descrente do amor. Mas um otimismo completamente desconhecido, me fez subir para uma crença maior e saudosismo.


O que nos torna humanos? Qual o sentido da vida? Acho que o que nos torna animais diferentes é justamente olhar as coisas, as pequenas coisas com um olhar não-Freudiano, não-prático, não- cartesiano. Eu sou humano porque faço, existo e continuo. Questiono a razão de tudo, mas mesmo sem achar resposta, continuo fazendo, existindo. Continuo a continuar.






sexta-feira, 2 de julho de 2010

Amanhecendo.

Faltavam poucos minutos para a manhã explodir efetivamente. Ele estava desesperado tentando convencê-la para que continuássem juntos. Ela não ouvia, desesperada, só queria que ele fosse embora logo antes que alguém os visse e descobrisse que o rapaz pernoitara na casa dela. Ele estava à beira dos prantos, o sussurro desesperado. Segurando as mãos dela, como se segurasse sua própria alma. Mas como fumaça, elas começaram a ficar longe do alcance dele. E o sol, a manhã, estávam contra ele. Não há nada mais rápido e perceptível do que o desabrochar da manhã. A cada minuto tentando convencê-la, mais luz ia invadindo o céu, e devagar ia invadindo o chão e as coisas.
Ela pediu aos prantos também, para que fosse embora. Ele não compreendia. Era a úlima oportunidade para fugirem juntos e escaparem de tudo que era contra a união deles. Será que ele fizera alguma coisa que mudou a decisão dela? Discutiram tanto durante a noite toda! Até perceberem que estava amanhecendo e que tudo precisava voltar e permanecer ao status quo. Ele a queria como esposa, como mãe dos filhos dele. Mas agora, com esse pé atrás, nas escuridão da noite, colocava dúvida no peito do homem. Por consequência, medo. Por consequência, desespero.
As flores já estávam iluminadas. A mãe da moça, em seu quarto já começava a lentamente voltar do estado inconsciente. O rapaz com seus olhos inundados, olhou para ela, num último suspiro mudo. Ela disse não. E pesou como navio em suas costas. E pesou como uma lâmina em seu peito. O rapaz então, soltou a mão dela. Levantou rápido, colocou suas coisas nas costas, e voltou-se de costas. Deu alguns passos, seus pés levantavam lentamente e pisavam forte, com resistência. Eram agora dois grandes animais pesados e preguiçosos, empacados. O ar passava difícil pelo seu nariz. Era denso.
A moça estava com as mãos juntas, desesperada por um lado, e com medo por outro. Suas pernas não podiam se mover. Duas grandes forças se pressionavam contra ela. Eram iguais e opostas, portanto, a moça só podia ficar parada. Com as mãos juntas, e as lágrimas descendo pelo seu rosto. Cada parte de lágrima eram pedaços de sua alma, de sua aura. A cor dela ia embora. O desespero tomou conta dela. Queria gritar, mas a garganta estava bloqueada. Queria mexer as mãos, mas o sangue não passava mais. Quando o rapaz já tinha ido embora há muito, a moça continuava lá. Intacta. todos os bloqueios físicos e sentimentais, congelavam-na. Por fim, Quis respirar, e não pôde. Caiu no chão, e nem a famíla e nem o rapaz, tiveram a preocupação de refletir sobre a causa mortis.

sábado, 5 de junho de 2010

Sonhar.

Apaga a luz, desliga tudo. Vai chegando perto da sua cama através da memória, tateando de leve. Encontra com a ponta de seus dedos o edredon, frio. Deita na cama se cobrindo. Vira para o lado e mantém os olhos abertos olhando para no nada no escuro. Começa a lembrar de como se esquentava antes. A nostalgia começa a permear o ar que passa devagar no nariz. Para distração, pensa no dia. Pensa em alguma besteira. Alguma conversa, alguma fala, alguma foto, qualquer coisa. E dorme. O sonho que é lembrado assim que acorda, é o que estava acontecendo alguns momentos antes do despertar. Infelizmente ele se refere à nostalgia sentida no momento em que deitou. Senta na cama. O quarto semi-escuro se mostra do mesmo jeito que estava antes de dormir. O silêncio domina. Os pensamentos giram dentro do quarto, sussurrando. A lembrança está quente, assim como o edredon antes frio. O sonho fora completamente utópico. Ele remetia à esperança. Onde tudo fica bem. Fora uma cena bonita, com lágrimas chorosas e mãos dadas, cabeças enconstadas diagonalmente. Um pedido de desculpas mútuo. Um sol bonito no céu bonito. De repente, desperta. "Claro que foi um sonho" se diz aquele que esava ficando tranquilo com o sonho. Levanta e ignora as lembranças que os cômodos de sua casa dizem. E os cômodos sempre insistem nesse assunto. O que deveria ser um refúgio, um lugar aconchegador, acaba se tornando o lugar que levanta mais e mais as lembranças que você teme lembrar. Mas a contra-esperança é forte, e a força do esquecimento é cada vez maior tambem. Tudo está bem. O que não está é a ferida que ainda não sumiu. Mas já levantou do tombo e já esta caminhando, olhando para o mundo. Chegando em sua casa e olhando-a com outros olhos. E os olhos sorriem para outros, outras e para o mundo.

Ceticismo



Com a dor, vem a dor. Com a ferida vem a tristeza. Com o refletir vem a raiva. Com a calma, vem a lembrança. Com o desejo de fuga, vem o ceticismo. Com o ceticismo, vem o conformismo. Com o confromismo, vem a rotina. Com a rotina, vem a loucura. Com a loucura, vem o desejo de fuga novamente. Com esse novo desejo de fuga, vem a possibilidade. Com a possibilidade, vem a novidade. Com a novidade, vem o esquecimento. Com o esquecimento, volta a lembrança. Com a lembrança de volta depois do esquecimento, vem a nostalgia. Com a nostalgia, vem a serenidade. Com a serenidade, vem a tristeza de novo. Com a tristeza vem a raiva, o refletir, o desejo de fuga, o ceticismo. Com tudo, vem tudo. Só não pense que o azul representado é o retrato real e inteiro do ser. Este retrato, mostra só uma face pequeno de tudo. E eu vou escrevendo com o desejo de não mostrar nunca o tudo.

Soneto do cético

O amor é conceito inexistente Tende a criar, mas no fim só destrói Nada explica o porquê do sorridente, Só se dá e recebe; e no fim corrói.

Tudo tem seu fim, inexperiente, Um dia você verá como dói, A solidão será a confidente, E esta nunca olha, consente ou condói

Porém, não tema, pobre e só amante, Um dia verás que teu forte herói Nada mais é que um entorpecente

Que desiste, some e ninguém constrói Não quero me iludir, nem me tente, Descrente estou, como acontecer sói.