quinta-feira, 9 de setembro de 2010

When I'm 64.

Quando eu ficar velho quero ficar assim. Se eu tiver a sorte de ficar velho, quero ficar assim. Viver a vida como se estivesse correndo guiando uma roda ao meu lado. Com o mato alto, o sol no fundo, me olhando. O corpo suando, vivo. Cabelo ao vento, sorriso estampado, canelas finas em alta velocidade. E agora de repente, tão mais que de repente, estou numa fila do banco, indo pagar uma conta que diz respeito ao meu futuro. Ao futuro não me interessa; não tomo conta deste, somente do presente. Talvez sejam as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no meu coração. Não posso enquadradar minha cabeça. Isso não pode acontecer. Simplesmente não pode. Entupir a agenda, fazer das responsabilidades um traço adulto que me faça crer em valores quadrados. Quero sempre amadurecer, crescer, evoluir. Tenho meu sonho bem guardado na gaveta; o da evolução. Quero arcar com responsabilidades e entrar na vida adulta, mas sem me tornar um. Minha mente, espero, continua aqui. Híbrida. O poeta está dormindo, enquanto eu cheio de obrigações escrevo em meu viver. O poeta não faz nada. Só dorme, canta, dança. Escreve poesias baratas, e fica admirando as pequenas coisas da vida. Se bem que agora, não sou mais eu pessimista. Agora sou eu neutro. Eu poeta sonha, olha para o céu e vê poemas infinitos. Eu olho para o céu e sinto sono. Poeta tem vida boa. Pode tornar qualquer dia especial, simplesmente porque ele tem vontade. Pode oferecer sorvete com o tempero que todos esquecem: a liberdade. Que graça tem escolher um sorvete pensando no quanto ele vale? Muito errado envolver sorvete com dinheiro. Eu poeta é esperto. Dá pitadas de liberdade e anarquia monetária em cima do sorvete. E envolve-o com o dia especial. Eu poeta sei que não se tornará adulto. E é isso que me reconforta. Se ele sair daqui, eu estarei vendido. Tão barato que eu nem acredito. Quero ser maduro para ser colheito. Não quero ser adulto que é fruta feia e ninguém escolhe. Quero viver a vida adulta como deve-se-à viver: de um jeito não adulto. Quero ficar velho e ter o meu violão ao meu lado sempre. Sentar na frente de casa, e gritar alguns versos que não valem uma rima miserável. Tocar violão e só. Gritar os versos e só. Gritar minhas histórias. O carinho pelas minhas histórias não poderia ser maior. Agora eu me vou. Dê boa noite ao Eu Poeta. Ele às vezes não ouve, mas não leve a mal.

3 comentários:

  1. Sabe... acredito que a palavra "adulto" está carregada com um peso que não lhe deveria ser próprio. Ser adulto não deveria significar ser sério ou até apático. Deveria, sim, significar ser maduro o bastante para não cair nos erros infantis e adolescentes; alguém com uma carga de sabedoria bonita de ser transmitida; e, sobretudo, alguém com a alegria dos jovens, justamente por saber como viver e por ter histórias para contar. E essa alma que não "envelhece", mas cresce sem perder a alegria, é uma das coisas que pode haver de mais bonito nas pessoas. Todos deveriam ter um pedacinho dessa espontaneidade e vivacidade. E acredito que o sorvete seja uma pequena expressão de algo grande. Infinitamente grande.

    Boa noite, Eu Poeta!

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  3. Reproduzo abaixo um artigo escrito pelo músico e professor de literatura da FFLCH- WISNIK, José Miguel. Sem Receita – ensaios e canções. São Paulo: Publifolha, 2004. (p. 381)

    O título é: "O olor fugaz do sexo das Meninas"

    Adolescente é um substantivo no particípio presente: um ser que está acontecendo. De corpo e de espírito, o adolescente é um estado. Estado de que?

    O segredo do adolescente está guardado, há séculos, no DNA da palavra adolescente, para só revelar-se agora, no nosso tempo. O radical vem do verbo latino oleo, -es, -ere, olui, que quer dizer exalar um perfume, um cheiro, recender – bem ou mal. É a mesma raiz da palavra olor, significando aroma sutil, fragrância. Com a preposição ad como prefixo formou-se o verbo latino adoleo, que quer dizer queimar, fazer queimar, consumir pelo fogo em honra de um deus. Entende-se: as ervas queimadas no altar do sacrifício exalam cheiros, perfumam, recendem – estão aí para isso. Podemos adiantar uma fórmula: o adolescente será aquele que arde, que queima, que se consome no seu próprio fogo, sacrificado aos deuses de sua idade, de sua época.

    O terceiro elemento da fórmula, o esc, só acentua a idéia de processo temporal, de algo que vai acontecendo, como na palavra evanescer – o que se esvai aos poucos. Assim, adolesco extensão de adoleo, é o verbo latino de duplo sentido que significa transformar-se em vapor, em fumaça, e também passar de um estado a outro – crescer, desenvolver-se, tornar-se maior.

    O elemento ent só vem acentuar mais uma vez, o acontecimento temporal: adolescente é aquele mutante que está sendo posto para estar se consumindo ardentemente, enquanto cresce. O particípio passado do mesmo verbo é (pasmem) adulto. Assim, diante do adolescente o adulto se arrisca sempre a ser o fósforo queimado, aquele que não fede nem cheira.

    Duas conseqüências. Na sociedade de consumo o adolescente, que se consome em consumir-se, tornou-se, por definição, o alvo principal, o modelo de consumidor ideal e sua realização mais plena. A sociedade de consumo quer converter todo mundo, adultos e crianças, ao estado adolescente, queimando-os no altar dos deuses voláteis. Ser adulto tornou-se um ato heróico. Ser criança, quase impossível.

    Ao mesmo tempo, ser adultolescente é um estado poético e utópico, desejável, de quem conclui os processos da maturidade sem deixar de arder. Caetano Veloso fez desse desejo o estribilho da sua canção “O Homem Velho”: “a carne/ a arte arde/ a tarde cai/ no abismo das esquinas/ a brisa leve traz o olor fugaz/ do sexo das meninas”. Só mesmo o faro de um poeta para captar nas palavras a fragrância imperceptível -o olor fugaz-, a essência da adolescência.

    Quem dera você possa buscar o adultolescente - ou como diz o texto acima: amadurecer sem deixar o ardor e o olor morrerem.....

    Um beijo no seu coração, Lucas

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