
Sentado à mesa. Com um copo na frente. Os braços apoiados. As pernas cruzadas, os pés nas pontas. Os olhos longe. A expressão vazia e profunda. Colhendo memórias enterradas, o homem se mexe aqui e acolá. Lá fora chove. A janela mostra o cinza dia. Os olhos se mexem, procuram algo que não está ali. Procuram algo que está longe. Tão longe, que chega não existir num espaço. O bule está evaporando a água. Mas isso não importa. Nada importa. Só a dor de lembrar importa agora. Ele respira fundo. A cabeça começa a pesar, como dói amar assim! "A vida poderia ser mais fácil...a vida poderia ser mais fácil..." é só isso que pensa. Apóia a cabeça na mão, o cotovelo na mesa de madeira. A mesa é tão velha, que está rachada. Mesa de madeira, pintada de verde gasto pelo tempo. A chuva vai caindo provocando uma serenidade sonolenta nele. Mas dormir é acessar a todas as memórias do inconsciente. Então ele prefere passar o dia, a noite ali. Apagar a luz é o tormento do dia a dia. Acender uma vela, pior ainda. Ouvir música, jamais. Ler poesia, nunca. Para quê servem os poetas?! De que adianta ler uma poesia dele, se a poesia sempre se encaixa com uma lembrança vinda direto da quarta dimensão? Os direitos autorais sempre vão para o espaço na hora da interpretação de um poema. E chove. Como é bom o som da chuva. Parece um violão dedilhado. Uma música leve, com uma melodia gaivoteante. À luz amarela, ele pensa mais e mais. Queria ser animal. Seguir somente seus instintos. Coça a barba, passa a mão em seus cabelos. Ajeita o óculos. Lembra de Carlos Drummond de Andrade.
O amor é grande e
cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e
cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e
cabe no breve espaço de beijar.
Se apaixonar nada mais é do que se deixar levar pela maré do mar aberto. E não se importar com a infinidade do horizonte. E se desiludir do amor, é nadar no mar da solidão, com a consciência de que, se talvez achar um pedaço de terra, nada vai mudar o fato de que o oceano da solidão é infinito e sempre estará lá para te esperar e te envolver. E o oceano está tão unido com o tempo. O tempo é algo que some na descoberta da terra. Mas ele volta arrematador ao encarar o mar de novo. Você diz que não há tempo. Mas não existe tempo inexistente. Não e possível você falar que não tem tempo. Todo mundo tem tempo. Tempo a gente dá, a gente corre, a gente morde, a gente dá carinho, a gente beija, abraça, a gente esconde, a gente mostra, a gente divide. Todos temos tempo. O tempo é tão relativo quanto a vida.
Perguntas que sempre me intrigaram, desde o passado, na quarta dimensão:
Quanto tempo dura um beijo?
Quanto tempo dura uma dor?Perguntas que sempre me intrigaram, desde o passado, na quarta dimensão:
Quanto tempo dura um beijo?
Quanto tempo dura um doce na mesa?
Quanto tempo dura uma aula?
Quando tempo dura um amor?
Quanto tempo você precisa para se apaixonar?
Quanto tempo demora pra você chegar na casa da sua namorada?
Quanto tempo você fica com sua namorada?
Quanto tempo demora pra você terminar com sua namorada?
Quanto tempo faz que você não dá um beijo de boa noite na sua mãe?
Quanto tempo demora um punch-line?
Quanto tempo tem o tempo?!





