segunda-feira, 25 de outubro de 2010

À mesa.


Sentado à mesa. Com um copo na frente. Os braços apoiados. As pernas cruzadas, os pés nas pontas. Os olhos longe. A expressão vazia e profunda. Colhendo memórias enterradas, o homem se mexe aqui e acolá. Lá fora chove. A janela mostra o cinza dia. Os olhos se mexem, procuram algo que não está ali. Procuram algo que está longe. Tão longe, que chega não existir num espaço. O bule está evaporando a água. Mas isso não importa. Nada importa. Só a dor de lembrar importa agora. Ele respira fundo. A cabeça começa a pesar, como dói amar assim! "A vida poderia ser mais fácil...a vida poderia ser mais fácil..." é só isso que pensa. Apóia a cabeça na mão, o cotovelo na mesa de madeira. A mesa é tão velha, que está rachada. Mesa de madeira, pintada de verde gasto pelo tempo. A chuva vai caindo provocando uma serenidade sonolenta nele. Mas dormir é acessar a todas as memórias do inconsciente. Então ele prefere passar o dia, a noite ali. Apagar a luz é o tormento do dia a dia. Acender uma vela, pior ainda. Ouvir música, jamais. Ler poesia, nunca. Para quê servem os poetas?! De que adianta ler uma poesia dele, se a poesia sempre se encaixa com uma lembrança vinda direto da quarta dimensão? Os direitos autorais sempre vão para o espaço na hora da interpretação de um poema. E chove. Como é bom o som da chuva. Parece um violão dedilhado. Uma música leve, com uma melodia gaivoteante. À luz amarela, ele pensa mais e mais. Queria ser animal. Seguir somente seus instintos. Coça a barba, passa a mão em seus cabelos. Ajeita o óculos. Lembra de Carlos Drummond de Andrade.

O amor é grande e

cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e
cabe na cama e
no colchão de amar.
O amor é grande e
cabe no breve espaço de beijar.

Se apaixonar nada mais é do que se deixar levar pela maré do mar aberto. E não se importar com a infinidade do horizonte. E se desiludir do amor, é nadar no mar da solidão, com a consciência de que, se talvez achar um pedaço de terra, nada vai mudar o fato de que o oceano da solidão é infinito e sempre estará lá para te esperar e te envolver. E o oceano está tão unido com o tempo. O tempo é algo que some na descoberta da terra. Mas ele volta arrematador ao encarar o mar de novo. Você diz que não há tempo. Mas não existe tempo inexistente. Não e possível você falar que não tem tempo. Todo mundo tem tempo. Tempo a gente dá, a gente corre, a gente morde, a gente dá carinho, a gente beija, abraça, a gente esconde, a gente mostra, a gente divide. Todos temos tempo. O tempo é tão relativo quanto a vida.
Perguntas que sempre me intrigaram, desde o passado, na quarta dimensão:
Quanto tempo dura um beijo?
Quanto tempo dura uma dor?
Quanto tempo dura um doce na mesa?
Quanto tempo dura uma aula?
Quando tempo dura um amor?
Quanto tempo você precisa para se apaixonar?
Quanto tempo demora pra você chegar na casa da sua namorada?
Quanto tempo você fica com sua namorada?
Quanto tempo demora pra você terminar com sua namorada?
Quanto tempo faz que você não dá um beijo de boa noite na sua mãe?
Quanto tempo demora um punch-line?
Quanto tempo tem o tempo?!

sábado, 9 de outubro de 2010

Enquanto o seu Lobo não vem.


Vamos passear na floresta escondida, meu amor. Vamos passear na avenida. Vamos passear nas veredas do alto, meu amor. Há uma cordilheira sobre o asfalto. A estação primeira de mangueira passa em ruas largas. Passa por debaixo da Avenida Presidente Vargas. Presidente Vargas. Presidente Vargas! Presidente Vargas! Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil. Vamos passear escondidos. Vamos desfilar pela rua onde Mangueira passou. Vamos por debaixo das ruas. Debaixo das bombas, das bandeiras, debaixo das botas. Debaixo das rosas, dos jardins, debaixo da lama. Debaixo da cama. Debaixo da cama. Debaixo da cama. Debaixo da cama. Debaixo da cama. Debaixo da cama.

Debaixo da cama. O que tem debaixo da cama? Certamente seria o lugar por onde passear escondido. Meu amor? Não mais. Talvez essas palavras cantadas de Caetano façam sentido para o vadio. Mas sozinho. O convite da música serviria apenas para o vadio e ele só. E meu só. A Avenida Presidente Vargas e cheia, movimentada, cheia de guerras e disparidades. Porém, quando o vadio a encara, ela está sozinha. Encara-a de madrugada. Às três da manhã, o vadio anda pela avenida mais importante. Presidente Vargas! E o que ele encara? O nada. O infinito, porque não? O silêncio da ausência. Grita. É estridente. É tão torturante que ele, vadio bêbado que tem ares inconscientes de equilibrista, faz barulho por onde passa. Qualquer barulho físico é melhor do que o silêncio que grita e rasga e corta. Cambaleia e cai em qualquer portão. Não importa, é só um vadio. Quem se importa com um bêbado vagabundo? E ainda mais um homem de roupas tão imundas! Chapéu côco gasto pelo tempo e sapato mal engraxado. Veja, o sapato não é sujo, é mal engraxado. O vadio não gosta de que engraxem o sapato dele, não gosta de ter que ficar em uma posição superior. "Não mando engraxar meus sapatos, engraxo eu mesmo." O vadio é visto como um torto. Como um invertido. O vadio não acredita mais no afeto das mulheres. Foi então que se rendeu à simplicidade. Acredita fielmente no amor, mas não como algo tangível à ele. As esperanças ficam guardadas junto com a utopia. A felicidade, ele sempre toma uma hora aqui outro gole acolá. Sempre anda com a garrafa pequena de felicidade. Mas é para ser tomada na hora de afogar as mágoas. E é por isso que fica bêbado, vadio. Um dia vai correr atrás dos seus sonhos, vai parar de se iludir com felicidade, e vai sair correndo feito besta para tornar seus sonhos matéria visível e tocável. E as mulheres, ele ainda não conseguiu achar sentimento. Só a carne, a matéria, o interesse, a confusão. Elas dizem que gostam, mas depois tudo muda. Não há compreensão. Pobre vadio. Queria encontrar uma mulher com sentimentos, mas só achou a matéria. Queria a companhia debaixo da cama, para passear, se esconder. Queria a companhia para caminhar na Avenida Presidente Vargas. Mas a mulher que ele amou não existe mais. E depois de muitas outras, viu que o amor é um só mesmo. Ele amou a primeira. Ou foi a segunda? Ou foi a terceira? Enfim. Ele amou uma. Vieram outras, mas ele não achou sentimento. Concluiu que só houve uma mulher em sua vida. E por mais que ele ainda gostasse dela, não havia mais jeito. Porque a única mulher que ele amou, não existe mais. É viva, mas não existe mais. E a saudade aperta. E a mulher que ele amou, é aquela que ele conheceu. E ela permanece em forma de ideia, de memória. E apenas isso. Só que não dá para amar o sentimento, assim como não dá para amar a carne. Só se ama a carne e o sentimentos, juntos. Unidos por músculos, ossos, órgãos e alma. E o vadio caiu no chão. E agora seu inconsciente trabalhava por si só, deixando o vadio um pouco livre e descansado do trabalho mental. O inconsciente alimentava a mulher que ele ama. O inconsciente alimenta o vadio que é feliz sem ter que beber da felicidade.

sábado, 2 de outubro de 2010

Um táxi em Marte.

Estava com umas pessoas numa nave espacial não identificada. Destino: Marte. Chegando lá, que sol brilhante! Tão brilhante que deixava o tom das coisas até bonito. Após passar pela atmosfera, o horizonte vermelho me encantava. Estava com roupas espaciais. E de repente, um menino, do alto de um morro vermelho, me chamava. Eu me aproximava dele, lentamente. Chegando perto dele, dei minha mão e subi no morro. Vi que estava sem capacete. Perguntei "Isso aqui não é real, não é?". Como poderia respirar em Marte, cuja atmosfera é cheia de gás carbônico?! Quando olhei para terra vermelha e vi plantas. Era bonito o verde contra o vermelho. Disse que os tons das coisas eram mais bonitas, por conta do sol. Andando, respirando receioso, continuei. Minha família estava lá, junto comigo. Minha mãe, meu tio, meus avós, minha irmã. Então, entramos numa colônia de férias. Estava quente. Minha mãe me deu uma regata e pediu para que me trocasse no vestiário. Entrei, me troquei. Quando vi que estava com tatuagens. Muito bonitas. Uma mandala no meu peito direito, e uma foto de uma mulher com asas e rabo de diabo em cima de um cogumelo colorido para ser terminada em meu braço. Fiquei maravilhado, achei muito bonitas. Quando coloquei a regata, vi um relance e vi uma tatuagem nas minhas costas inteiras. Meu peito gelou por dentro. Se minha mãe visse a das minhas costas, seria uma briga certeira. Fui falar com minha mãe, de costas contra sua vista. E assim foi. Era noite, de repente e estávamos no carro. Todos perdidos, consultávamos o mapa. As luzes da cidade invadiam o carro, sem parar. E no mapa, estava escrito bem grande e em letras maiúsculas: GUARULHOS.
Depois de muito perdidos, peguei um táxi, que levou-me de volta para a colônia. A temperatura era quente, mas um quente confortável. A umidade do ar deveria estar bem alta. É difícil eu me sentir confortável, em qualquer temperatura mais quente que o normal.

domingo, 19 de setembro de 2010

Estava eu abaixo do mar.

Estava no carro. Na estrada. Por um acaso, misturado com o ócio do momento, olhei para o céu. Vi nuvens. Elas estávam estranhas. Me senti debaixo do mar, olhando para a superfície. E de repente, entrei nessa viagem. Estava em movimento, alta velocidade, com muitos metros abaixo do nível do mar. Quase prendi a respiração. No entanto, não queria desvidrar-me delas. Nuvens sedutoras e perigosas. O vento batendo forte em meu cabelo. A velocidade. O fato de que as ondas lá em cima eram brancas e com aspecto de algodão. Nada me tirava daquele transe inédito. Vá lá. O ócio me convencia a não desgrudar os olhos, tudo para não me tirar daquela sensação.Enfim. O carro já estava distante o suficiente para eu não enxergar mais aquela visão hipnotizante. Chego em casa, tudo normal. Sento e vou escrever sobre confiança. Não passou de um rascunho. E eu tenho uma apatia muito grande com rascunhos. Porque, se o texto é um rascunho, significa que eu não consegui escrevê-lo de uma vez. E se eu não consegui escrevê-lo de uma vez, significa que estava difícil para escrever. E sempre que está difícil para escrever, o texto é uma porcaria. Agora vai tudo bem. Contei das nuvens, um acontecimento. Um pequeno notável. E talvez, ao som dessas músicas-ondas que me agradam muito os ouvidos, eu consiga escrever um pouco sobre a confiança. As pessoas. É destas que precisamos e de que temos medo. Até algum dia aí, eu não sentia muito o entendimento e nem a lógica do ato de temer as pessoas. De repente, como ver ondas no céu, me veio o sentimento. Pessoas. Mesmo quem é próximo, mesmo quem tem seu sangue nas veias. Sempre há um momento em que você se vê olhando para a superfície da água. E vê que há muitos e muitos metros entre você e a atmosfera. Pode ser bonito, como eu no carro, mas muito perigoso. Porque geralmente, quando você está olhando para a distante superfície, longe como o horizonte, você está sozinho. E as pessoas que você confia estão longe, longe. Tão longe quanto a superfície. E é a solidão que faz com que você perca a confiança. E pior é quando você se vê sozinho, olhando para a superfície, logo após que alguma pessoa te afundou. E ser afundado não é algo que contribui para você acreditar nas pessoas. Mas agora deixe-me pesar para o outro lado. Como é desesperante, e quase sufocante, como a água que te separa da superfície, você querer conquistar a confiança de uma pessoa. Não é culpa dela, nem sua e nem de ninguém. Não é Maria/ Nem sua mãe/Ou as estrelas;/São os homens e as cidades infinitas. Segunda vez que cito essa música num texto meu; notável. Conquistar a confiança é complicado. É uma virtude, um privilégio. Mas eu não quero ficar pensando e nem metafisicando, que nem a peça de teatro extremamente contemporânea que vi. "Quem sou eu? O que temos diante dos olhos?!" Sinceramente? Estava quase dormindo. Minhas palavras? "Essa peça é muito 'humanas.'"Compreendo e sou completamente a favor da reflexão sobre todos os detalhes de nossa vida. Mas aquilo ali já era sacanagem. O que tirei de bom naquela peça é uma lição que eu vou resumir um pouco agora para finalizar o texto. Damos um passo e pensamos. Damos outro passo e pensamos, e olhamos para trás, olhamos para frente e pensamos. Quanto disso podemos tirar! Uma visão em quatro dimensões, com análise e fatos desenterrados. Mas também é necessário, ás vezes, dançar e cantarolar ao pé do ouvido. E disso não tirar nenhuma conclusão filosófica. Porque é possível sim, haver um ato sem uma avaliação simbólica. E mesmo que discorde, eu digo: Apenas dance, e tire disso todos os sentimentos possíveis. Não analise, sinta. Dance.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Segunda-feira sem verbos.

E intenção da escrita de hoje: sem verbos. Início da segunda feira: manhã bonita. O sol lá fora, forte e tímido; dia quente. Escola. Tudo normal, mesmas aulas, nada de novo. E no meio, uma notícia com muita felicidade em sua constância. Felicidade em meu peito. Um dia desses; pecado. Eu e você. Sol lindo e céu e nuvens e azul bebê. Tudo para nós. E uma separação contra o desejo , porém, justa para você. Sono? Então, já para a cama! Minha felicidade, a mesma. Luz. Difícil contraste nesse dia. E a prova de história. E o metrô. E o sol ainda lá, quente e o céu ainda lá azul bebê. Uma chamada aleatória. Meu caminho para lá, agora. Estação diferente. E logo meus amigos. Meus bons e velhos amigos. De repente...a noite! A luz branca no fundo do sol, e mais acima a Lua...que sorriso lindo! Alguém...meu caminho, agora o de antes, contorno da simples aleatoriedade. Meu telefone afinal de contas, para mim, para alguém. E com a graça da tecnologia, a Lua, a estrela. O sorriso da lua, Vênus bem abaixo. A menina, um sorriso? Meu coração cheio de luz com meu convite irrecusável. Sorriso interno. Meu desejo? Um beijo. Um beijo e apenas um. Uma flor equivalente à um beijo. Minha mão em seu cabelo. Cabelos ao vento. Sem um penteado e bonitos. Um sorriso. Um beijo. Sem fim! Mas...a despedida. Pecado, num dia como esse. Minha memória, solta, como uma imagem. A Lua no céu azul bebê. Cedo. Admirável Lua. Euforia pouco antes de agora. Vontade de besteira, bobagem, a vida linda. Mil, mol vezes vencedor do dia. E o convite irrecusável? Ah, sim. Este segredo para a lua. Para a menina. Sorriso? Mol vezes vencedor do dia. Um beijo? Um poeta com rima. Um menino vencedor, poeta. De um menino para poeta. Tudo isso só com um beijo. Lembrete necessário; a menina. Seu rosto, sua beleza incrível! A luz novamente! Vontade de besteira, bobagem, a vida linda. Por favor, seu convite, seu convite apenas. Agradecimentos, à Lua por favor. À menina anjo pequeno de bochechas cheias. Muito explícito? Somente dois dedinhos. E também, ao sentimento, a palavra. Às preocupações, seus devidos lugares. Fora daqui! Este espaço, meu? Pois bem, meu e meus sentimentos. Eu e minhas palavras amigas. Inimigas. Traiçoeiras. Olhos de ressaca, pois bem. Dissimuladas e ciganas. Sem elas, eu não inteiro à vida. Quem sabiamente, com teoria e lógica, com o pensamento à palavra. Oralmente e com ousadia ao pensamento para a mim, contrari edade.A dedução de que o dia de ontem para mim, às palavras? Sim, o dia de ontem, Domingo. Porém, Domingo com domingo. Domingo após domingo. E nada. E nada de palavras. Dia tão nada, que nada de palavras. Irônico? Irônico, adjetivo ao pensamento de negação à ideia de que a Lua com seu sorriso, calças e cu com a conquista referente à notícia do início do dia em contraste com o tédio do dia, com a luz infinita e forte e quente e inevitável. Irônico? Coincidência? Ora menina, ao convite irrecusável, sorriso. Um beijo sim. Uma rima. Um menino. Uma menina. Um poeta. E mais um beijo. O ônibus! Um beijo rápido. E no fim, um telefonema para a confirmação da vida.

sábado, 11 de setembro de 2010

Cultura e Civilização.

Um céu bonito. Um céu com estrelas infinitas que refletem nos olhos, atravessando o corpo com suas luzes celestes até alcançar a alma, apaziguando toda minha inquietude e pressa. A luz das estrelas me banha e me tira a consciência do tempo. Me tira tudo que poderia me deixar apressado e preocupado com o tempo. Porque o tempo não anda junto com as quietude das estrelas? Parece que ele sempre anda com o brilho de uma luz forte, do sol. O tempo corre na velocidade da luz. É noite. As luzes no céu não aparecem muito. Sabe, moro numa cidade poluída. Ela me obriga a poder ver somente as luzes dos carros, dos prédios, das propagandas. Ela me obriga a vidrar meus olhos. Mas eu sou insistente. Demora, mas eu procuro Orion até encontrá-lo. Ele também tem uma vida cheia, não pode ficar pousando o tempo todo. Olha Vênus. Esta vive para pousar. Fica sempre azuladamente brilhando. Ela e a Lua têm uma relação oscilante. Melhor definindo: elas valsam. Ora estão próximas, ora estão distantes. Uma relação de tapas e beijos. Onde, por vezes, a Lua está cheia e cheia de amores, com Vênus logo ao seu lado. E os dois namoram para todos verem. Mas, logo brigam e a Lua fica murcha (muitas vezes nova) e Vênus fica longe, embirrada. Mas isso é apenas uma visão humana. Uma visão exata certamente daria explicações de fenômenos e não haveria muito o que discutir sobre metáforas e símbolos. A vida é uma arte, não é mesmo? Mas eu me refiro à arte de criança arteira. Daquelas que dão susto, bagunçam a casa, fazem gritaria. E nós somos os pais, os adultos chatos. A vida fica correndo no quintal, feliz da vida. Cabelos ao vento, uma roda ao lado girando, controlada pela vida criança. O sol quente, escaldante. Revela-se na pele da criança. Suada, com as canelas finas à mostra, em alta velocidade. E sempre vem o adulto dizendo para parar de correr, porque senão ela se machuca. E não é que ela se machucou mesmo? Sei que se ninguém tivesse falado nada, ela ainda estaria correndo. A gente sempre coloca urucubaca na nossa vida e sempre acontece merda. Devíamos nos sujeitar mais a nossa vida. Devíamos rir da vida depois daquele escorregão. Devíamos tirar mais fotos da nossa vida correndo. Uma imagem tão bonita! Em um dia lindo, ela correndo feliz! Mas sempre estamos lá para dizer que não é certo, que é melhor ficar parado, estático, chato. A cultura e a civilização/elas que se danem/ou não/contanto que deixem meu cabelo belo/como a juba de um leão. Contanto que deixem meu cabelo como a juba de um leão, me sujeito a viver proseando por aí contando minhas histórias.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

When I'm 64.

Quando eu ficar velho quero ficar assim. Se eu tiver a sorte de ficar velho, quero ficar assim. Viver a vida como se estivesse correndo guiando uma roda ao meu lado. Com o mato alto, o sol no fundo, me olhando. O corpo suando, vivo. Cabelo ao vento, sorriso estampado, canelas finas em alta velocidade. E agora de repente, tão mais que de repente, estou numa fila do banco, indo pagar uma conta que diz respeito ao meu futuro. Ao futuro não me interessa; não tomo conta deste, somente do presente. Talvez sejam as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no meu coração. Não posso enquadradar minha cabeça. Isso não pode acontecer. Simplesmente não pode. Entupir a agenda, fazer das responsabilidades um traço adulto que me faça crer em valores quadrados. Quero sempre amadurecer, crescer, evoluir. Tenho meu sonho bem guardado na gaveta; o da evolução. Quero arcar com responsabilidades e entrar na vida adulta, mas sem me tornar um. Minha mente, espero, continua aqui. Híbrida. O poeta está dormindo, enquanto eu cheio de obrigações escrevo em meu viver. O poeta não faz nada. Só dorme, canta, dança. Escreve poesias baratas, e fica admirando as pequenas coisas da vida. Se bem que agora, não sou mais eu pessimista. Agora sou eu neutro. Eu poeta sonha, olha para o céu e vê poemas infinitos. Eu olho para o céu e sinto sono. Poeta tem vida boa. Pode tornar qualquer dia especial, simplesmente porque ele tem vontade. Pode oferecer sorvete com o tempero que todos esquecem: a liberdade. Que graça tem escolher um sorvete pensando no quanto ele vale? Muito errado envolver sorvete com dinheiro. Eu poeta é esperto. Dá pitadas de liberdade e anarquia monetária em cima do sorvete. E envolve-o com o dia especial. Eu poeta sei que não se tornará adulto. E é isso que me reconforta. Se ele sair daqui, eu estarei vendido. Tão barato que eu nem acredito. Quero ser maduro para ser colheito. Não quero ser adulto que é fruta feia e ninguém escolhe. Quero viver a vida adulta como deve-se-à viver: de um jeito não adulto. Quero ficar velho e ter o meu violão ao meu lado sempre. Sentar na frente de casa, e gritar alguns versos que não valem uma rima miserável. Tocar violão e só. Gritar os versos e só. Gritar minhas histórias. O carinho pelas minhas histórias não poderia ser maior. Agora eu me vou. Dê boa noite ao Eu Poeta. Ele às vezes não ouve, mas não leve a mal.