
Numa terra distante e diferente, havia uma menina saltitante brincando e cantando baixinho. Não se sabe de onde ela veio, e nem o propósito dela. Não se sabia também nem onde e nem quando estava situada aquela terra diferente. A menina tinha olhos azuis, bem azuis, cabelos castanhos ondulados, seus dentes da frente eram levemente avantajados. Sua pele era morena, não tão morena e não tão branca. Um meio termo. Ela brincava feliz, e mesmo tendo consciência da falta de informações e conhecimento sobre tudo ao seu redor e tudo sobre sua história, ela não ficava aflita e nem assustada.
Estava ela brincando, quando se aproxima um homem velho, aparentemente muito cansado. A menina para de brincar e olha para o velho.
-O que acontece com o senhor?- perguntou a menina.
-Eu acabo de chegar da terra dos homens.- Diz num suspiro cansado. O homem conseguira escapar de uma batalha violenta, que fazia parte de uma grande guerra, que envolvia o planeta inteiro.
-Terra dos homens? Já ouvi falar muito dessa terra...como o senhor conseguiu chegar aqui?-indagou a menina.
-Cheguei aqui por acidente...acho que é aqui a terra onde se chega sem querer, não é?-disse o velho, - Como é a senhorita chegou aqui?-
-Eu não sei...mas acho que faz sentido isso o que o senhor falou...todos que já passaram por aqui chegaram de surpresa, sem querer...-Pensou alto a menina.
-Todos chegam e todos conseguem ir embora?- Pergunta o velho.
-Sim, acho que para ir embora tem que ser sem querer também...- Respondeu a menina.
-Há quanto tempo está aqui?- Perguntou o velho já começando a ficar assustado.
-Eu não sei nada sobre mim, sobre essa terra, sobre nada...eu só...brinco...-Disse a menina num tom melancólico.
-Não achas que um dia poderia ir embora daqui? Não há muito o que fazer por aqui, não é mesmo?-
-Eu tenho tudo o que uma menina precisa.- Disse a menina num tom pomposo.
-Está bem, não quis ofendê-la...é que, de onde eu venho, há muitas coisas para se fazer, se aprender, se viver!- Exclamou o velho.
-E muitas guerras para se fugir...-
O velho ficou sem resposta.
-Acho que o senhor não é uma boa pessoa.-Esclareceu a menina
-Porque acha?-
-Se o senhor veio parar aqui, e estava no meio da guerra, quer dizer que o senhor não queria sair da guerra, e veio parar aqui sem querer.-Ponderou a menina.
-Oh não! Não ache isso, por favor! Eu estava tentando salvar um amigo meu, por isso não queria sair de lá, ele estava morrendo...e aliás, com esse tempo que já passou...-O velho não terminou a frase pois estava tentando esconder lágrimas.
-Não acredito no senhor.- Insistiu a menina.- O senhor é um homem. Aprendi com todos esses anos que não se deve acreditar nos homens.- Completou.
-Todos esses anos?- Estranhou o velho.- É uma menina!-
-Sei que sou, mas pensa que o tempo passa por aqui?-Disse a menina com um ar de riso;- O tempo tem muita intenção de aparecer por aqui, mas é justamente esse o segredo de não chegar aqui...por isso não conseguem me encontrar eu acho...-
-Não há muito o que fazer nessa terra traiçoeira, não é?- Concluiu o velho.
-Não mesmo.- Concordou a menina.
-Então deixe-me brincar com você, e quando esquecer da vida, voltarei para minha terra.-Disse o velho se achando genial por isso.
-Você é quem sabe.- Concordou a menina indiferente.
E assim os dois ficaram brincando, por muitos e muitos anos. O tempo não conseguiu até hoje chegar nessa terra, e o velho, por ter escondido fortemente dentro de seu peito a vontade de voltar para a sua terra, não conseguiu voltar nunca mais. O tempo continuou parado. Se ele voltasse, iria chegar no exato instante que que desapareceu. Até que o tempo desistiu de esperar, e continuou. Seria até perigoso para o velho voltar. Então ele continuou com a menina, ora ou outra aparecendo um viajante surpreso e depois voltando. A menina não entendia como é que o velho não voltava. Mas ela também não entendia porque ela não voltava, então...